O Grande Cinturão Atlântico de Sargaço

Map of ocean currents around the Sargasso Sea and Great Atlantic Sargassum Belt.

Posted by leandro

Escrito por: Nerea Elorza

Qual é a coisa, qual é ela, que não tem asas, não é ave nem peixe, mas consegue percorrer o Atlântico inteiro como se surfasse no vento? É o sargaço, essa alga castanha e flutuante que, ano após ano, se transforma num dos maiores fenómenos naturais do oceano, e que por vezes, ainda que de forma tímida, se aproxima dos Açores.

O Grande Cinturão Atlântico de Sargaço (ou “Great Atlantic Sargassum Belt” em inglês), não é apenas grande: é gigantesco. Em anos de maior intensidade, pode ultrapassar 8.000 km de comprimento, formando um enorme corredor de algas que liga as costas de África ao Caribe e ao Golfo do México. Estima-se que contenha milhões de toneladas de biomassa flutuante, tornando-se a maior agregação de macroalgas do planeta. E, talvez o mais preocupante: todos os anos cresce mais e por mais tempo, prolongando a sua permanência no oceano e aumentando o seu volume de forma quase constante.

Map of ocean currents around the Sargasso Sea and Great Atlantic Sargassum Belt.
Imagem: Wikimedia Commons

Este crescimento descontrolado não é aleatório. Está profundamente ligado ao excesso de nutrientes que chegam ao oceano, principalmente nitratos e fosfatos vindos de rios como o Amazonas. Junta-se a isto o aquecimento das águas superficiais, consequência direta das alterações climáticas, e mudanças nas correntes oceânicas que guiam o sargaço como um tapete vivo ao sabor do Atlântico. É uma soma de fatores que transforma um elemento natural e necessário num fenómeno de escala global.

No mar aberto, o sargaço continua a ser um ecossistema fascinante. Funciona como um “bairro flutuante” onde tartarugas juvenis se escondem, pequenos peixes encontram proteção e inúmeras criaturas do plâncton se multiplicam. Mas quando chega à costa, a história muda radicalmente. As densas acumulações formam barreiras que asfixiam corais e pradarias marinhas, impedindo que a luz chegue aos habitats costeiros. À medida que se decompõe, o sargaço consome oxigénio da água, criando zonas hipóxicas onde a vida marinha tem dificuldades em sobreviver. E, para piorar, a decomposição liberta gases tóxicos, incluindo sulfureto de hidrogénio, responsável por odores intensos e irritações respiratórias.

O impacto económico também é enorme. Quando invade praias, o sargaço afeta diretamente o turismo, altera padrões de pesca, dificulta a navegação e interfere com a fauna costeira. Em algumas regiões tropicais, tornou-se uma verdadeira crise ambiental e social, exigindo limpezas constantes e estratégias de adaptação.

E os Açores?

Embora o arquipélago esteja fora da rota principal deste cinturão, é impossível ignorar que o oceano está em plena transformação. Alterações de ventos e correntes podem, ocasionalmente, empurrar massas de sargaço mais para norte, fazendo com que pequenas quantidades cheguem às ilhas. Estes episódios, ainda raros comparados com os trópicos, servem como lembrete de que os Açores estão ligados ao Atlântico em todas as suas dimensões, desde as baleias que o percorrem até às algas que viajam milhares de quilómetros sem nunca tocar no fundo do mar.

Por isso, investigadores e instituições acompanham de perto este gigante flutuante através de satélites e modelos oceânicos. Compreender a sua origem, prever os seus movimentos e minimizar os seus impactos tornou-se uma prioridade científica global.

O Grande Cinturão Atlântico de Sargaço é mais do que um fenómeno natural, é um alerta. Mostra como o oceano responde às mudanças que lhe impomos, seja pelo aumento de nutrientes, pelo aquecimento global ou pela alteração dos seus padrões de circulação. E, aqui nos Açores, onde o mar é parte da alma das ilhas, acompanhar estas mudanças é essencial para proteger os ecossistemas e continuar a celebrar a vida marinha que enche as nossas águas de magia.

Workers clean seaweed on a beach near moored boats on a sunny day.
Imagem:Elizabeth Ruiz/AFP via Getty Images