Primavera nos Açores: a passagem das baleias de barbas

Baleias de barbas
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A primavera marca um período particularmente importante para a presença de grandes cetáceos nos Açores. Todos os anos, entre março e maio, várias espécies de baleias de barbas cruzam o arquipélago no coração do Atlântico Norte, integrando as águas dos Açores nas suas rotas migratórias sazonais. Esta presença frequente está associada à ligação entre padrões migratórios, disponibilidade de alimento e a posição geográfica estratégica dos Açores no Atlântico.

As baleias de barbas, pertencentes ao grupo Mysticeti, são caracterizadas pela forma como se alimentam: em vez de terem dentes, possuem estruturas flexíveis chamadas barbas que lhes permitem filtrar grandes volumes de água em busca de krill, pequenos crustáceos e outros organismos marinhos. Esta filtração é eficiente em zonas onde a produtividade biológica é elevada, permitindo que estes animais acumulem energia suficiente para suportar grandes deslocações ao longo do ano.

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Francisco Garcia

Os padrões migratórios destas baleias interligam áreas de reprodução, que geralmente se situam em águas mais quentes e em latitudes mais baixas, com zonas de alimentação de alta produtividade em latitudes mais elevadas.

Com a chegada da primavera, as baleias iniciam, assim, um movimento predominante de sul para norte. Em muitos casos, esta migração é coordenada com o aumento da produção de fitoplâncton no Atlântico Norte, o chamado “spring bloom”, que serve de base para toda a cadeia alimentar marinha e, consequentemente, sustenta grandes concentrações de krill e outros recursos alimentares ao longo da rota migratória.  Frequentemente, quando as baleias-azuis, as baleias-comuns e as baleias-sardinheiras (e, por vezes, também as baleias-de-bossa e as baleias-anãs) passam pelos Açores, permanecem alguns dias na região para se alimentarem, aproveitando a elevada abundância de plâncton e krill característica desta época do ano.

Estudos científicos confirmam que o pico da presença destas espécies no arquipélago ocorre entre abril e maio, coincidindo com o avanço da “spring bloom” no Atlântico Norte. A relação entre a migração das baleias e a disponibilidade de alimento foi descrita com base em observações sistemáticas e dados de produtividade oceânica: foi observado que as baleias acompanham a expansão norte da produtividade primaveril, utilizando áreas intermédias como as águas dos Açores para alimentação temporária antes de continuar o seu percurso rumo às zonas de alimentação de verão.

Para além da posição geográfica, as características oceanográficas da região contribuem para a presença destas espécies. As ilhas estão rodeadas por águas profundas muito próximas da costa, o que cria condições favoráveis para espécies oceânicas. A dinâmica das correntes e frentes oceânicas promove a mistura das águas e o enriquecimento em nutrientes, sobretudo na primavera, quando o aumento da luz solar favorece a produtividade primária. Este aumento da produção de fitoplâncton sustenta níveis elevados de zooplâncton e pequenos peixes, essenciais para as cadeias alimentares marinhas.

A ocorrência regular de baleias de barbas em determinadas regiões é também considerada um indicador do estado de saúde dos oceanos. Após séculos de exploração comercial intensa, muitas populações de grandes baleias sofreram reduções drásticas. Embora algumas espécies apresentem sinais de recuperação, continuam vulneráveis a diversas pressões, como as alterações climáticas, o tráfego marítimo e a poluição. A presença destas baleias nos Açores durante a primavera reflete a importância da região como área relevante para a conservação de grandes cetáceos no Atlântico Norte.

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Photo by Francisco Garcia

A passagem das baleias de barbas pelos Açores na primavera resulta, assim, da conjugação entre os seus movimentos migratórios de sul para norte, a disponibilidade sazonal de alimento e as características oceanográficas da região. Esta combinação torna o arquipélago um ponto-chave nas rotas migratórias do Atlântico Norte e reforça o seu valor científico, ecológico e conservacionista.

Compreender estes processos é fundamental para valorizar a presença destas espécies e promover a proteção dos ecossistemas marinhos de que dependem.

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Artigo de blog escrito pela bióloga Soraia Portela.

Referências:

Romagosa, M., Baumgartner, M., Cascão, I., Lammers, M. O., Marques, T. A., Santos, R. S., & Silva, M. A. (2020). Baleen whale acoustic presence and behaviour at a Mid-Atlantic migratory habitat, the Azores Archipelago. Scientific Reports10(1), 4766. https://doi.org/10.1038/s41598-020-61849-8

Visser, F., Hartman, K., Pierce, G., Valavanis, V., & Huisman, J. (2011). Timing of migratory baleen whales at the Azores in relation to the North Atlantic spring bloom. Marine Ecology Progress Series440, 267–279. https://doi.org/10.3354/meps09349

Laura, G., Miranda, V. D. L., Clara, S., & M, T. P. J. (2014). Looking for North Atlantic Baleen Whales: When are they coming to the Azores? Frontiers in Marine Science1https://doi.org/10.3389/conf.fmars.2014.02.00088

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