Os cachalotes são os maiores cetáceos com dentes do mundo e uma das espécies mais emblemáticas dos Açores. Apesar de serem observados regularmente à superfície, é nas profundezas do oceano que passam grande parte das suas vidas, à procura de alimento.
Mas afinal, o que comem estes gigantes? A resposta é simples: principalmente lulas. No entanto, a realidade é muito mais fascinante.
Os cachalotes são mergulhadores extraordinários, capazes de atingir profundidades superiores a 1.000 metros, onde exploram a chamada zona mesopelágica e até águas mais profundas. Neste ambiente escuro, onde a luz solar praticamente não chega, vivem inúmeras espécies de cefalópodes adaptadas à vida nas profundezas.
Um dos estudos mais completos realizados nos Açores analisou o conteúdo estomacal de cachalotes e identificou vestígios de mais de 40 espécies de cefalópodes, revelando uma dieta muito diversificada. Apesar desta variedade, algumas famílias destacam-se claramente. As lulas das famílias Octopoteuthidae e Histioteuthidae representam a maior parte da biomassa consumida, seguidas por outras espécies profundas, incluindo a famosa lula-gigante (Architeuthis). Curiosamente, embora esta última faça parte da dieta dos cachalotes, representa apenas uma pequena fração da alimentação total, contrariando a ideia popular de que os cachalotes vivem sobretudo da caça a lulas gigantes.
Outro aspeto interessante é que muitas das espécies consumidas possuem órgãos bioluminescentes. Estima-se que cerca de três quartos das espécies identificadas produzem luz, uma adaptação comum nas profundezas oceânicas. Além disso, a maioria destas lulas tem uma flutuabilidade quase neutra e deslocam-se relativamente devagar. Isto sugere que, em vez de perseguirem constantemente presas rápidas, os cachalotes encontram frequentemente agregações destas lulas em águas profundas, utilizando a sua ecolocalização para as localizar com grande precisão.


Durante muito tempo, o conhecimento sobre a alimentação dos cachalotes dependia sobretudo da análise do conteúdo estomacal de animais capturados ou encontrados mortos. Hoje, as técnicas científicas evoluíram significativamente. Um estudo recente realizado nos Açores utilizou ADN presente em fezes para identificar as presas consumidas, permitindo estudar a dieta dos animais sem qualquer perturbação. Os resultados confirmaram que os cefalópodes continuam a ser a componente dominante da alimentação, mas revelaram também a presença de vários peixes mesopelágicos, mostrando que a dieta é mais variada do que se pensava anteriormente.
A investigação continua também graças à colaboração entre cientistas e empresas de observação de cetáceos. Sempre que são encontrados fragmentos de lulas à superfície, frequentemente deixados após uma alimentação recente de um cachalote, estes podem ser recolhidos para análise. A colaboração entre investigadores e empresas de observação de cetáceos tem sido também fundamental para aprofundar o conhecimento sobre a alimentação dos cachalotes.
No âmbito do projeto MONICEPH, foram recolhidos fragmentos de cefalópodes encontrados à superfície, muitas vezes associados a eventos recentes de alimentação de cachalotes. A análise destas amostras através de técnicas de ADN revelou que todas pertenciam ao polvo-gelatinoso-gigante (Haliphron atlanticus), uma espécie de águas profundas que parece desempenhar um papel importante na dieta dos cachalotes, embora continue a ser pouco conhecida pelos cientistas.
Cada mergulho de um cachalote representa uma viagem a um dos ecossistemas menos explorados do planeta. Ao estudar aquilo que comem, os investigadores não ficam apenas a conhecer melhor esta espécie, mas também descobrem informação valiosa sobre a biodiversidade das profundezas marinhas dos Açores. Assim, sempre que observamos um cachalote a preparar-se para um mergulho profundo, vale a pena lembrar que está prestes a entrar num mundo praticamente invisível para nós, onde decorre uma das mais impressionantes caçadas do oceano.


Artigo de blog escrito pela nossa bióloga Gina Salazar.
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Referências
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