Voando sobre o Mar

Quando se fala em aves marinhas normalmente vem à mente apenas uma ave: a gaivota. No geral, podemos dizer que a maioria das pessoas desconhece a diversidade de aves que habitam nos nossos mares. O que não é muito surpreendente, se tivermos em conta, que a grande parte das espécies de aves marinhas voam longe do nosso olhar. As nossas viagens de observação de baleias e golfinhos dão-nos uma excelente oportunidade para desfrutar destas aves.

Para alguém que esteja a dar os seus primeiros passos no mundo da ornitologia (observação e estudo das aves) tem em mãos uma tarefa complicada, pois requer uma visão bem treinada. O voo elegante duma ave à procura de alimento pode ser confundido com um simples movimento de “sombra” no horizonte. Mas, uma vez aguçada a nossa curiosidade, estimulados os sentidos e refinada a nossa visão podemos desfrutar da grande diversidade de aves que vagueiam pelo nosso oceano.

Que são as aves marinhas?

Existe uma grande variedade de espécies de aves marinhas que podemos observar aqui mesmo nos Açores. Desde as mais conhecidas como a gaivota de patas amarelas à grande variedade de pardelas (Cagarros, Alma negra, Frulho, Estapagado, Cagarro de coleira), passando pelos sempre elegantes Garajaus (Garajau comum e rosado) e acabando com os pequenos painhos de apenas 25 gramas (Painhos da Madeira, de cauda forcada ou de Monteiro).

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Fotografia 1 – Garajau Comum adulto (Sterna hirundo)

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Fotografia 2 – Garajau Comum juvenil (Sterna hirundo)

Algumas aves podem ter uma grande longevidade (podendo chegar até aos 60 anos) e reproduzem-se a um ritmo muito lento (muitas espécies só colocam um ovo por ano). Precisamente por causa disto são animais muito sensíveis às mudanças no seu meio, o que tem levado à redução drástica de algumas populações. Normalmente reproduzem-se em colónias que podem ter várias centenas e até milhares de casais, situadas em áreas inacessíveis como falésias. Passam a maior parte de sua vida no mar, onde encontram o seu alimento: peixes, crustáceos, moluscos e outros animais marinhos. Encontram-se nos níveis mais elevados da cadeia alimentar marinha, sendo ótimos indicadores do estado de conservação dos ecossistemas.

Exatamente por viverem grande parte da sua vida em mar aberto, levantamos algumas perguntas sobre estas magníficas criaturas:

  • Como é que conseguem ficar a maior parte das suas vidas na água salgada do mar?
  • Como é que conseguem ficar pousadas na água durante tanto tempo?
  • Conseguem levantar voo com a plumagem molhada?

As aves marinhas podem apresentar uma grande variedade de adaptações anatómicas e fisiológicas, que fazem do mar, um meio tão hostil para o resto das aves, o seu habitat ideal. Muitas delas impermeabilizam as suas penas com uma cera produzida através de uma glândula chamada “uropigial”, que está situada na base da sua cauda. Quando as observamos a endireitar a sua plumagem, elas estão na verdade a distribuir a cera pelas suas penas. As suas patas apresentam uma membrana interdigital entre os seus dedos, fornecendo uma maior superfície de contato com água, facilitando a sua natação. Além disto, apresentam também glândulas que eliminam de forma eficiente o excesso de sal do seu organismo.

 

Importância dos Açores para as aves marinhas

O Arquipélago dos Açores, pela sua posição geográfica e isolamento, a milhares de quilómetros de qualquer continente, constitui uma importante zona de passagem para muitas espécies de aves marinhas. O arquipélago é na realidade um retiro isolado no meio do Atlântico ao longo das suas rotas de migrações.

As aves aproximam-se da zona costeira dos Açores e procuram ilhéus ou escarpas isoladas que sirvam como áreas de nidificação (áreas onde as aves depositam os seus ovos) e de descanso. É de tal forma importante, que algumas espécies têm uma grande dependência das nossas ilhas.

É importante referir, por exemplo, o caso do Cagarro (Calonectris diomedea borealis), a ave marinha mais abundante nos Açores, onde a população nidificante açoreana representa 74% da população mundial da subespécie Calonectris diomedea borealis e 52% da espécie Calonectris diomedea.

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Fotografia 3 – Cagarro iniciando o voo (Calonetris diomedea borealis).

Do mesmo modo, a posição do Arquipélago entre a América e a Europa faz das ilhas ocidentais um importante refúgio para aves de procedência americana que são trazidas por tempestades, muito raramente avistadas na Europa. Estes eventos ocasionais fazem a delícia de todos os ornitólogos e dos amantes da observação de aves (vulgo birdwatching).

 

As aves marinhas e o povo açoriano

Para o povo açoriano, com uma tradição e uma história tão ligadas ao mar, as aves marinhas sempre tiveram uma forte ligação com as pessoas que procuram no mar a sua forma de vida.

Algumas das aves mais abundantes nas ilhas, tais como os cagarros, foram outrora caçadas pelos habitantes das ilhas. O cagarro era muito apreciado pela sua carne e também pelas suas penas e gordura, tal como foi descrito por Gaspar Frutuoso. Hoje em dia o cagarro encontra-se listado como “vulnerável” no Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal e encontra-se protegido nos Açores.

É especialmente forte a relação entre as aves marinhas e os pescadores. A pesca afeta de diversas formas as aves marinhas e o seu ambiente, representando uma grave ameaça, mas é também um potencial aliado. Se por um lado as aves marinhas podem ser indicadores da localização dos bancos de peixes, por outro lado, a poluição marinha proveniente de artes de pesca e da atividade humana no geral, contribuem para a deterioração do habitat e a redução da população.

Também na nossa atividade de Whale-Watching, a ajuda das aves marinhas é essencial para encontrar cetáceos no vasto oceano. Por vezes os vigias conseguem ver os golfinhos devido a presença de grandes “passaradas”, onde as aves, em coordenação com os elegantes golfinhos, encontram e encurralam as suas presas.

 

Ameaças para as aves marinhas

Infelizmente, como muitos outros grupos de animais, estas maravilhosas aves encontram-se fortemente ameaçadas, em grande parte por causa do ser humano. A sua dependência tanto do meio marinho como do terrestre duplica o número de ameaças que enfrentam. No mar, a presença de plástico, substâncias tóxicas e outros tipos de poluição constituem um grave problema. Por outro lado a sobrepesca dificulta cada vez mais a procura de alimento, podendo ainda contribuir para a sua morte, quando ficam presas em anzóis ou redes de pesca.

Em terra, a presença de predadores como os gatos ou ratos nas suas zonas de nidificação causa danos em muitas das suas colónias. Ao mesmo tempo o desenvolvimento urbano excessivo e a degradação da costa reduzem o número de áreas disponíveis para a nidificação. Um impato particularmente grave é a intensa iluminação da costa, que pode desorientar as jovens aves na hora de abandonar os seus ninhos, e que podem acabar por morrer.

Podemos dizer que as aves marinhas são o grupo de aves mais ameaçado no mundo: mais de um terço das 346 espécies conhecidas estão ameaçadas a nível global, várias delas no limiar da extinção.

 

A conservação das aves marinhas nos Açores

Afortunadamente os açorianos encontram-se cada vez mais consciencializados em relação à conservação dos seus recursos naturais. Podemos encontrar um número cada vez maior de cidadãos e instituições envolvidas na conservação deste grupo de animais.

Um exemplo do que acabamos de referir é a campanha SOS Cagarro, que é promovida todos os anos pelo Governo dos Açores. Esta campanha, divulgada junto da população a partir de folhetos informativos, das redes sociais e dos media, envolve a população e instituições no salvamento de cagarros juvenis encontrados “perdidos” em estradas na proximidade das zonas costeiras. A campanha pretende demonstrar os cuidados a ter quando se encontram as aves juvenis: em caso de atropelamentos, em dias de nevoeiro intenso ou à noite quando ficam encadeadas.

Outros projectos como o LIFE Ilhas Santuário para as Aves Marinhas no Corvo e no Ilhéu de Vila Franca do Campo, que começou em 2009, cujo objetivo é a conservação das colónias de aves marinhas nos Açores através da recuperação do seu habitat e medidas de controlo e erradicação de espécies invasoras introduzidas. Este é um projecto coordenado pela Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA) em parceria com a Secretaria Regional do Ambiente e do Mar (SRAM), a Câmara Municipal do Corvo e a Royal Society for the Protection of Birds (RSPB).

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