Poluição Marinha nas águas dos Açores

Por causa da imensidade e profundidade dos oceanos, até recentemente, o homem acreditou que estes podiam ser usados para despejar todo o lixo produzido, sem consequências. No entanto, hoje em dia já temos o conhecimento suficiente para saber que isto não é bem assim. Um exemplo disto são as zonas mortas (onde a vida marinha não consegue sobreviver) ou as denominadas “grandes ilhas de plástico”: grandes extensões de plástico de mais de 1600 quilómetros, tal como a “Great Pacific garbage patch”, e que podemos encontrar em todos os oceanos do nosso planeta.

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Fig. 1: Lixo à deriva – pormenor da “Great Pacific garbage patch”, mostrando a predominância de pedaços de redes de pesca e a grande variedade de plásticos (1)

A poluição é o dano ambiental causado pelo lixo introduzido no oceano, a existência de lixo no mar e o próprio lixo num determinado ecossistema. Este dano é causado quando as atividades humanas aumentam a concentração duma substância na água do mar, sedimentos ou organismos acima das suas concentrações naturais.

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Fig. 2: Esquema geral mostrando as origens e quantidades de resíduos vertidos anualmente para os oceanos. Gráfico: Vanessa Gonzalez Ortiz

Os plásticos e os oceanos

Os plásticos podem ser divididos em dois grupos: os microplásticos (< 5mm) e os macroplásticos (> 5mm).

Ambos os grupos têm, cada vez mais, um enorme impacto no conjunto do biota marinho. O atual ritmo implacável da produção de plástico de uso único faz dos plásticos um dos fatores mais generalizados e crónicos da poluição marinha. É especialmente importante referir o grande impacto dos microplásticos. Estas pequenas partículas são despejadas no mar de muitas maneiras diferentes e são distribuídas ao longo das bacias oceânicas pelas correntes marinhas, resultando numa distribuição global destes materiais (Figura 3).

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Fig. 3: Impactos dos microplásticos e macroplásticos no biota global. Esquema: Vanessa Gonzalez Ortiz

Já foram encontradas grandes quantidades de plásticos nos estômagos de cetáceos, aves marinhas, peixes, tartarugas e outros organismos dos nossos oceanos. Em 2013 foram encontrados 17 kg de plástico nos estômagos dum cachalote arrojado no Sul da Espanha. Já em 2016, nas costas do Mar do Norte, em 13 dos 29 cachalotes arrojados foram encontrados resíduos plásticos, tais como uma rede de pesca de 13 metros e um pedaço de plástico de 70 cm pertencente a um carro.

O mesmo se tem verificado com as tartarugas: estas ingerem sacos de plástico, confundindo-os com águas-vivas, o que causa o bloqueio do intestino, a perfuração da parede intestinal e a libertação de produtos químicos tóxicos para o seu organismo.

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Fig. 4: (a) Cetáceo enrolado numa rede; (b) Ave com lixo no estômago; (c) Tartaruga a comer plastico (2)

A poluição no mar dos Açores

Ao olhar-mos para as águas cristalinas e azuis do mar do nosso Arquipélago, podemos pensar que não existe poluição. E no que toca ao nível de poluentes químicos, os mares dos Açores são relativamente limpos. Contudo é importante referir a existência de grandes quantidades de plástico. Até hoje ainda não foram encontrados resíduos plásticos nos estômagos dos cachalotes arrojados na região, o mesmo não acontecendo com as tartarugas ou com as aves marinhas. Em 2016, após a análise de 30 tartarugas, detetou-se que 83% dos animais tinham plástico no organismo. Em 2015, no âmbito da Campanha SOS Cagarro, tinham sido encontradas 149 aves com presença de plásticos no organismo, numa média de cinco fragmentos por animal.

No ano de 2015 começaram nos Açores uma série de ações e projetos para monitorizar a presença de plástico e outros poluentes nas águas Açorianas. Em 2015, a campanha “Açores entre mares 2015” retirou uma tonelada de lixo do mar e de zonas costeiras. Foram aproximadamente: 380 quilos de plástico, 300 quilos de lixo indiferenciado, 240 quilos de metal e 60 quilos de vidro. A campanha incluiu quase uma centena de atividades em todo o arquipélago, coordenadas pelos Parques Naturais de Ilha, tendo como objetivo, a “sensibilização para a problemática da poluição marinha e das zonas costeiras”, frisando que “marcou o início da recolha sistemática de informação relativa ao lixo recolhido em campanhas de limpeza subaquáticas e da orla costeira”. No entanto, e apesar do grande esforço realizado desde estas datas, ainda existe muito trabalho a ser realizado.

O projeto LIXAZ do Instituto do Mar (IMAR) que vai decorrer até 2019 pretende dar continuidade ao projeto AZORLIT (o qual decorreu entre 2015 e 2016). Este projeto vai estudar a quantidade de lixo marinho nos Açores e o seu impacto na ecologia alimentar das espécies marinhas. Por outro lado, a região dos Açores, através do Fundo Regional de Ciência e do IMAR também é parceira do projeto europeu INDICIT (https://indicit-europa.eu) que visa a implementação de indicadores relacionados com o impacto do lixo marinho em tartarugas marinhas e outros seres vivos.

Que podemos fazer para reduzir o nosso impacto?

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São muitas as pequenas coisas que podemos fazer para reduzir o nosso impacto no que toca ao lixo marinho. Durante as saídas de observação de cetáceos e de natação com golfinhos realizadas pela Picos de Aventura, deparamo-nos muitas vezes com grandes quantidades de lixo, desde sacos de plástico, latas e redes de pesca. Sempre que nos é possível recolhemos esses objetos e aproveitamos para explicar aos nossos clientes que este tipo de lixo têm um impacto negativo bastante elevado em muitos animais marinhos, nomeadamente em baleias, golfinhos e tartarugas.

Aproveitamos também o nosso pequeno projeto de educação ambiental chamado Picoslogia, (no qual visitamos alunos de escolas locais para falar sobre as nossas viagens e o avistamento de baleias, golfinhos e tartarugas) e falamos também sobre a poluição marinha, tentando sensibiliza-los para a importância de preservar o oceano e de o manter limpo.

Referências:

Referência foto:

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